[Resenha] Feliz ano velho: Marcelo Rubens Paiva

Sinopse:

Um jovem paulista de classe media alta, muitas namoradas, estudante de Engenharia Agrícola na Unicamp vê sua vida se transformar num pesadelo em questão de segundos. Durante um passeio com um grupo de amigos, Marcelo, de farra, resolve dar um mergulho no lago, em estilo Tio Patinhas. Meio metro de profundidade. Uma vértebra quebrada. O corpo não responde. Começa ali, naquele mergulho, a história de Feliz Ano Velho, um relato verdadeiro do acidente que deixou o escritor Marcelo Rubens Paiva tetraplégico, a poucos dias do natal de 1979. O autor confere à narrativa a mesma energia e o mesmo fôlego com que transpôs a armadilha do destino. Imóvel numa cama, Marcelo, o personagem, dá asas às lembranças e à imaginação. Foram 12 meses de uma recuperação lenta e dolorosa: dias e noites intermináveis numa UTI (a “antessala do céu ou do inferno”), o colete de ferro, a descoberta de que teria como extensão do seu corpo uma cadeira de rodas, os momentos em que chegou a pensar em suicídio. Marcelo, o narrador, se encarrega de colocar em palavras a relação de amor e respeito à mãe, o carinho das irmãs, a camaradagem e o encorajamento da turma, as festas e as fantasias sexuais. O acidente no lago seria o segundo tranco na vida do garoto. O primeiro foi aos 11 anos: o “desaparecimento” do pai — o ex-deputado federal Rubens Paiva — pela ditadura militar. Um despertar violento da consciência política. Apesar do tema trágico, o livro — que se tornou uma referência na literatura brasileira contemporânea — explode de humor, ternura e erotismo. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade. E a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas.

Comentários: 

Ler "Feliz ano velho" foi para mim como rememorar tempos melhores. Parece piegas e de fato é (um pouco), já que é quase impossível não lembrar que eu era na época que li a versão da Brasiliense do livro de Marcelo Rubens Paiva. Eu tinha então 16 anos e estava numa fase difícil na escola, onde hoje a galera mais entendida chama de bullying. Os livros escolhidos pelos professores eram "legais", mas nunca me senti verdadeiramente desafiada por eles. Era algo para se fazer em meio a escola, casa, cursos e amigos, que na época eram muito poucos. Ler era luxo ao qual meus pais sempre incentivaram, o que fez de mim a pessoa que sou hoje. Não dava para comprar livros novos, até porque não haviam livrarias onde a gente morava, mas dava para fazer algumas visitas ocasionais no sebo do bairro vizinho. E foi lá que eu encontrei "Feliz ano velho". Eu não tinha nenhuma referência do livro ou do que ele falava. Levei pelo título. Voltei lendo no caminho, dentro do fusquinha amarelo do meu pai, carro que o acompanhou até sua morte, em 2001. Já no começo, a impressão que tive era de que Marcelo não tinha escrito um livro. Ele conversava com a gente. Falava sobre sua vida com um amigo recém-descoberto, e ia fazendo com a gente abrisse os olhos, meio que na marra, para a realidade que o cercava naquele momento. Ele não queria agradar ou fazer a gente gostar dele. Ele só falava quem ele era. E foi isso que foi tão transformador para mim. Um cara de 20 anos "com a vida toda pela frente" (Essa frase é da minha mãe) fica paralisado por conta de um mergulho mal dado. Até aí a história seria trágica, mas ao contrário do que achei a princípio, o livro não é só sobre isso. É sobre a tomada de consciência de um garoto, onde a realidade se interpõe e faz com ele precise repensar sua vida, rememorando seus melhores e piores momentos.
Lembro que naquela época eu ri e chorei com seu livro. Tentei me colocar no lugar dele mas achei que seria uma ofensa ao que ele tinha passado. Meu pai não tinha sido morto pela Ditadura! Minha mãe não fora presa e teve que criar sozinha suas filhas, vivendo sob a sombra do silêncio escandaloso das autoridades. Nada disso. Ao contrário de Marcelo, minha tomada pela consciência política veio tarde, já na faculdade, e vem sendo moldada de acordo com minhas experiências. Não tenho a mesma bagagem intelectual e política de Marcelo Rubens Paiva, mas vejo seu livro como um grande catalisador para a minha tomada de consciência. Enfim, um livro para a vida toda!

Elimar Souza

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